Mentiras calmas

Certas verdades, desesperadas,

bordadas por gazes finas, transpassadas

perpassando as fases de uma vida em cela

revelam o vício dos vínculos convenientes

 

Ingenuamente, trazem o fim para o início

fundam precipícios nos verbos contritos

acordando atritos no poro indisposto;

desgosto em arrepios, anunciam conflitos

 

Certas verdades, desesperadas,

atadas por nós mudos, surdos e cegos

confrontam o ego de um mundo absurdo

e deixam escapar o que ia na palma…

 

…diante de tantas mentiras calmas

 

– Lena Ferreira –

Das distâncias solícitas

Como quem desabilita cãs promessas

hachura os velhos argumentos contestáveis

deitando novidades reticentes

entre vírgulas, pronto: saúda um novo hiato

onde nuvens esparsas convencionam preguiça

descansa no escapar de uns rasos versos

pelo canto dos olhos

tímidos, túmidos, encharcados

de um sentir tanto, íntimo e previsível,

sobre uma declaração concebida

à fórceps

solícitas, as distâncias mais tenazes

cegam o corte preciso

das elegantes tangentes

que apontam, cirurgicamente,

as arestas presumíveis

da habilidade improvável

De papel e nuvens

Um barco feito de papel e nuvens

barco pequeno que se atreve ao mar

enfuna as dobras nessas águas frias

corta oceanos, contorna os naufrágios

lança suas sedes pescando  ilusões

singra a sua saga, sangrando as marés

desafiando medos, faróis e rochedos

engole as ondas de arenosas espumas

e, pagando o preço pelo atrevimento,

breves avarias ancoram o seu cansaço

retorna ao porto nos braços do vento

atracando os fracassos aos pés da areia

desdobra as nuvens num quase descanso

desfeito em chuvas de refazimento

 

Placebo

Vê que já não peço que me entenda

quando deita nessas águas de absurdo

que escapolem pelos dedos de descuido

o teu olhar de abstrair o sono e o espanto

e que até ontem me propunha estradas suas

talvez um dia a mais ou outro surpreenda

talvez um dia a mais ou outro me arrependa

de ter fechado a porta e aberto mão da senha

– é que rever florindo os dolos encobertos

lembra fogueiras que ardem sem fogo ou lenha –

Preposto, oficiado são e sábio e profundo

conhecedor de toda causa e efeito

comprime a promessa para a cura

Na oferta, penso…

…repenso

e…

…dispenso

já que não passa de um mero  placebo

à essa loucura onde casta me concebo

– Lena Ferreira –

Se te rio

Quando olhas assim disfarçado em descuido

distraído, sugeres um debruçar atento

nos detalhes discretos suspensos no muro

que escalo sem medo de tombo ou razão

Não percebes que inundo o mesmo percurso

se te rio, é um mar que deságua do canto

águas amanhecidas que sonham o teu curso

percorrer à nascente que brota de um vão

Quando olhas assim disfarçado em espanto

assustado, sugeres refreio às vontades

não percebes que assim alimentas um tanto

enorme dos desejos que me fervem os nãos

E apesar dos olhares, os meus, em deságue

em disfarces sinceros, em distâncias seguras

como rios distintos que não sonham mares

vai lambendo as margens da tua ternura